Julio Primeiro desenvolve uma prática em que o pensamento plástico se articula a
partir da matéria e dos ritmos vitais: suas obras são ensaios táteis sobre a
passagem do tempo, a cooperação e a interseção entre o orgânico e o fabricado.
Trabalhando com madeira, tecido, sementes e resina, ele constrói superfícies e
Objetos que guardam a memória do gesto manual e a precisão de um olhar.
técnico. Peças que parecem crescer, secar, cicatrizar e, ao mesmo tempo, serem
montadas como artefatos industriais.
A textura é princípio compositivo: a porosidade da madeira contrasta com o brilho.
translúcido da resina; as sementes, dispostas em padrões ou dispersas,
funcionam como unidades de contagem e como vestígios de ciclos biológicos; o
Tecido atua ora como pele, ora como mapa de dobra e tensão. Esses materiais
Não são meros suportes, mas agentes ativos que determinam ritmo, densidade.
e escala das obras. O processo de construção privilegia operações repetitivas e
Intervenções graduais, como colagens, camadas, envernizamentos e raspagens.
que revelam um tempo de trabalho em que o crescimento e a erosão coexistem.
No plano conceitual, Julio articula coletividade e ciência: suas peças evocam
ecossistemas e redes de cooperação, ao mesmo tempo em que incorporam uma
sensibilidade experimental — medições, séries e variações controladas que
remetem a procedimentos laboratoriais. A cenografia e a fotografia documental
que marcaram seus primeiros passos reaparecem na maneira como organiza o
espaço expositivo, transformando objetos em dispositivos de encontro e
Observação.
O resultado é uma obra que pulsa entre o doméstico e o público, entre o
artesanal e o técnico, propondo uma poética dos ciclos de nascimento,
maturação e decaimento inscritos na matéria. Julio Primeiro afirma, por meio do
toque e da montagem, uma visão do mundo em que o humano participa de
processos maiores, e onde a arte funciona como um laboratório sensível para
Pensar relações entre natureza, trabalho e comunidade.
Fabrício Reiner de Andrad







