Jardim da imanência

Renata Laguardia


26/09/2026 a 07/11/2026


Renata Laguardia

Sobre a exposição

Jardim da imanência
Exposição individual de Renata Laguardia

A produção em pintura de Renata Laguardia carrega a bagagem da exigência acadêmica e a consciência de que a pintura é um meio de expressão que se cultiva no solo do tempo e brota na intimidade com o material. O mundo em tinta da artista é um lugar fantástico, de imagens estruturadas pela cor e de desvarios repletos de beleza.
O título Jardim da imanência reúne dois conceitos caros a Renata, ambos aproximados do zen-budismo: a imanência e a impermanência. A imanência habita um agora sem começo, meio e fim, um presente pleno que se basta. A impermanência chega com o jardim, que acrescenta a esse presente o tempo do ciclo da vida, com o que nasce, floresce e morre, em um espaço-tempo regido pela efemeridade. O jardim figura no título porque se faz presente na exposição inteira, nos cortes que dividem as cenas e nas passagens de folhagens e flores que retornam de obra em obra.
Na mostra, os cortes secos nas imagens chamam a atenção e funcionam como pontos de direcionamento do foco. Nesse movimento, Renata articula uma antropofagia em que referências da tradição das belas-artes se fundem à intuição, e essa mistura convida a uma leitura semiótica. O significante age para produzir sentido, e os signos se apoiam em cada escolha de representação, desde as imagens selecionadas, até as manchas que liquefazem as formas.
A mostra se inicia antes da entrada na galeria, com uma coletânea de rostos, em sua maioria de antropólogas, sociólogas, escritoras e revolucionárias brasileiras, apresentada em uma instalação desenvolvida para a vitrine. A peça funciona como uma espécie de catalogação e expõe, de modo desconfortável, as ausências que os processos de enumeração produzem, revelando uma contradição entre dar nomes e instaurar regimes de invisibilidade. Nesse contexto, lembra-se do gesto de Mary Beth Edelson ao criar Some Living American Women Artists (1972), em meio ao movimento feminista estadunidense dos anos 1960 e 1970. Edelson produz uma espécie de mapa da produção feminina nas artes visuais estadunidenses ao realizar uma releitura de A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, substituindo o rosto de cada personagem por artistas vivas e emoldurando a composição com retratos de outras artistas de vanguarda. Na obra, Jesus Cristo ganha o rosto de Georgia O’Keeffe.
O ponto de partida para o conjunto de Renata foi uma instalação de Gerhard Richter que ela descreve como claustrofóbica. Apresentada no pavilhão alemão da 36ª Bienal de Veneza, em 1972, a série 48 Portraits reúne quarenta e oito retratos de intelectuais e escritores do século XX, todos homens e todos ocidentais. A enumeração de nomes consagrados instala um estranhamento que a artista leva à vitrine ao compor sua própria galeria, agora de mulheres. Entre dezenas de placas de resina, duas aparecem veladas, com um aspecto turvo. Uma retrata a avó de uma amiga da artista, mulher de uma tradição matriarcal, e a outra é a imagem usada, em buscas na internet, para representar importantes personalidades negras, como Dandara, Luísa Mahin e Maria Felipa. Essa repetição visual remonta a um processo dos registros fotográficos e antropológicos no Brasil. Ao longo das missões de registro no país, retratos de pessoas negras circularam por muito tempo sem identificação, e essas fotografias se tornaram, com o passar dos anos, referências visuais públicas. Mulheres negras fundamentais para a história do Brasil, sem rostos registrados, tiveram seu legado preservado pela oralidade, em um processo de resistência. Quando pesquisadores resgataram seus papéis históricos, recorreram a essas fotografias anônimas. Assim, atualmente, a imagem que representa digitalmente Dandara é a mesma que ilustra Luísa Mahin e Maria Felipa.
Em diálogo com o trabalho da vitrine, que já anuncia inquietação, dois interesses convivem nas pinturas. O primeiro é a pesquisa recente da artista, uma releitura poética das soak-stains de Helen Frankenthaler, na qual dilui a tinta e permite que a ação do pigmento na imagem se torne uma coautoria orquestrada. O segundo é o profundo interesse, que ela cultiva há quinze anos, em dar protagonismo à cor, trabalhar escalas de uma mesma tonalidade e evidenciar uma alquimia própria de seu processo. Por cima da figuração, a mancha chega como convite da materialidade a uma autoria compartilhada. A tinta age como uma parceira que conduz o gesto a um território interior, parcialmente fora do alcance do controle. Esse gesto pode ser lido como analogia entre consciente e inconsciente. Renata, apaixonada pelo inconsciente e pela estrutura dos sonhos, encontra nas manchas o lugar em que esse território ganha corpo na tela. É na cor que a artista se conecta à intuição no trabalho, nesse acúmulo de conhecimento sem data nem ordem, que fica imantado ao corpo e se manifesta por meio da pintura.
Em O Homem (2026), a mancha recompõe a relação entre as figuras de uma reunião de homens posicionados para o registro, uma estrutura social de raiz patriarcal. A obra recorre à tradição pictórica de guardar memória. A conexão entre as partes se dá de maneira volátil, e o resultado se dilui, aquarelado como fumaça. Ao atravessar a composição, a mancha funciona como uma correnteza generosa, que passa por todos e mistura o que os traços do desenho antes haviam separado, como um fio condutor de genealogias. Os homens estão embebidos em tons de rosa, e basta essa cor para revelar a fragilidade de uma masculinidade construída como rígida. Uma cadeira vazia, no canto da tela, instaura um espaço para a perpetuidade e para reminiscência dos que já se foram.
A obra de maior escala desta exposição apresenta um jardim com fendas, que surgem no ponto em que o tecido termina no chassi, e a pintura retoma na tela ao lado. Em Ouroboros/déjà vu (2026), mulheres se reúnem em torno de uma mesa. O jardim assume o centro da cena, enquanto a repetição de parte do plano, crava um lugar de continuidade. O título evoca a serpente que devora a própria cauda, símbolo presente em diversas tradições e registrado no Egito Antigo, ligado ao infinito, à renovação e ao ciclo da vida. A percepção dos ciclos se ampliou durante uma residência artística na Suíça, onde a artista viu o outono terminar e o inverno chegar. Para ela, estações muito marcadas aproximam as pessoas do ritmo das folhas que morrem enquanto outras nascem. Em Ouroboro, uma mancha desce sobre o rosto de uma das personagens e liga o corpo à toalha da mesa. Ela escorre e sugere uma ação em curso, um movimento que pertence ao processo da própria tinta e reconfigura o campo de cor da mesa.
Um tempo cíclico rege a exposição, em estado de jardim. Assim como em um horto, cada elemento vive um ritmo próprio. A flor dura poucas semanas, já as árvores atravessam séculos, ambas anfitriãs na cerimônia que revela a vida vivida e toda a vida que há de vir.
As obras reunidas carregam a experiência de quinze anos de produção e olham para o fazer da artista, para a técnica, para o salto criativo e poético que a mancha inaugura, para essa intuição que conecta e impõe presença. Renata revisita a formação de seu repertório e os incômodos que ele impõe hoje, atenta às ausências e aos apagamentos do processo de seleção. É possível notar, mesmo em um conjunto breve, o gesto espiralar da artista, que retorna aos campos de subjetividade que a pintura torna visíveis e segue adiante levando, antropofagicamente, aquilo que carrega consigo. Como todo jardim, a mostra permanece em curso, e cada visita encontra o que floresce, o que se recolhe e o que ainda se prepara para brotar.

Ana Carla Soler
curadora

Sobre o artista


O que pretendo com minha produção é investigar a visão, o olhar, principalmente através da pintura. Minhas imagens são uma tentativa de tirar o protagonismo do ser humano e colocá-lo na natureza, que é por ele tão explorada e invisibilizada. Investigo qual é a relação disso com nossa apreensão do real. Parto do pressuposto de que somos enganados pela visão e de que negamos o que nos circunda. Quero entender de que maneira a visão sintetiza e constrói a nossa noção de paisagem. No meu trabalho faço o exercício de ver a referência imagética durante pouco tempo e a partir dali tento reproduzir a imagem através do que lembro ter visto. Lido assim com a memória, com o que resta da visão. As imagens que foram se criando, ora a partir de fotografias de registros de viagens, ora através de colagens feitas com revistas antigas, foram me mostrando meu gradativo interesse por água, igarapés, vegetação do cerrado (predominante em minha cidade de origem), jardins, que considero a natureza domesticada, céus e fogo.