





















Sobre a exposição
Pintura abismal
A gestualidade é o ponto de diferenciação no trabalho de René Machado. Ao contrário de um gesto minimalista, equilibrado e constante, o gesto desse artista é instável pois interessa a ele investir em uma reflexão sobre a própria fragilidade que vivemos no contemporâneo. Não são gestos gratuitos nem estardalhaços fortuitos, mas o que prevalece é uma interrogação do artista sobre um mundo que não deseja a pausa, o intervalo, o descanso. Seu traço é ora intenso, ora trêmulo. Ora contínuo, ora fragmentado. A variação gestual sobre a tela parece mais uma alusão a estados de espírito do artista do que a ideias rigorosamente sistemáticas. Está no seu gesto rápido e decisivo uma leitura de mundo. Ou melhor, ela é a extensão da inquietude que nos cerca. Na pintura de René há o excesso e o barulho. Ela contém o caos e seu tempo acelerado. De forma simbólica, é também uma pintura que reverbera e é fundada em acontecimentos como o passo corrido, gritos, buzina, poluição, apreensão, inquietude, angústia… A pintura é uma síntese da cidade e da sua desordem. Seus gestos repetitivos e descontínuos sugerem um sentimento contraditório, preenchido por compulsão e hesitação.
O estilo de René deve muito ao expressionismo gestual da Escola de Nova York mas também ao seu passado no envolvimento com o graffiti. Na sua obra está presente o uso ousado da cor, a variação dramática das pinceladas assim como o gesto desafiador e insubordinado do graffiti. As impressões sobre a tela, uma espécie de decalque que o artista utiliza a partir de anúncios diversos provenientes de jornais, revistas e da própria web assim como experimentações com imagens da História da Arte, resultam não só numa ligação intrínseca com a linguagem radical do graffiti e as reverberações da cidade na tela, mas condicionam também um diálogo envolvente com a gestualidade acentuadamente vigorosa que desenvolve. O artista quer acentuar exatamente a sujeira ou rasura das megalópoles, desse tempo árido e hostil, isto é, um ambiente imerso em desordens de toda espécie. E a rasura é esse movimento de riscar, borrar, fazer desaparecer, mas que ainda deixa marcas aparentes. Aquilo que quer ser apagado mas não se esvai totalmente. Essa ação interessa a René: marcas que são impregnadas à superfície, que não podem ser esquecidas, mesmo que partidas, sendo acumuladas e criando um tecido vivo com suas próprias regras.
Sua pintura oscila entre a representação (turva) e a abstração, sempre com uma demonstração virtuosa de pinceladas. Seu gesto evoca uma busca não por uma linha espontânea, mas desobediente. É aqui, mais uma vez, que o artista se coloca como intérprete das coisas do mundo. A visão que René compartilha conosco é a de um tempo em ebulição e revolto. Sua série de pinturas mais recente, em fundo preto, exposta pela primeira vez, é um exemplo desse olhar agudo sobre o regime de instabilidades e angústias que também demarcam o tempo presente, mas com um acento mais trágico. O artista investe em uma pintura taciturna e ameaçadora, ainda que traços monocromáticos e de cores mais quentes atravessem o plano pictórico. A escala do políptico revela a intensidade dos seus gestos e dão forma ao assombro. São linhas austeras, angulosas e descontínuas que, como chamas, brilham sobre o fundo escuro e fosco. O que sobressai são os tons lúgubres de um grande painel onde o sinal da tragédia é ressaltado, especialmente se compararmos com outros trabalhos com fundo claro expostos nessa mostra. Por outro lado, René deixa a sua marca registrada nessa série mais sombria: estão lá, para além das pinceladas expressionistas, a inserção de retículas como grids recortados e imagens serigrafadas do cotidiano como referências da cultura de massa ou de produtos industrializados. Nada, contudo, aparece por inteiro. O artista reforça o signo da fragmentação como um impulso à imaginação do espectador que tende a completar aquilo que parece disperso, mas também como um sintoma da sua própria obra, que é marcada pela velocidade e instantaneidade da vida contemporânea como uma crítica ao consumismo e a alienação que definem o nosso tempo.
Contudo, a obra não se faz exclusivamente pelo signo dramático ou febril. Ou melhor, existem graus de dramaticidade que são elaborados pelo artista. As pinturas, com fundo claro, não trazem o grau sombrio recentemente comentado. Seu drama, se podemos elaborar dessa forma, se coloca sob o jugo do “acidente gráfico”. Elementos de outra ordem prendem nossa vista, como a forma nervosa do traço, a espessura, a angulação, que nada mais são do que simbologias sobre um mundo em frenética transformação. Os gestos de René são traçados não com a clareza e a dureza próprias do cálculo, mas com intencional desalinho. As impressões, por exemplo, são sobrepostas ou aparecem de forma fragmentada na tela de forma reiterada, como ondas de dissimulação.
A forma como elabora os campos cromáticos ou decide acerca da gestualidade empregada, como preferirem, se faz por meio de um transbordamento em toda a extensão da tela, ou seja, há um movimento de extroversão do plano para fora do suporte, como se a cor e a forma buscassem o espaço. A tela não dá conta do caos e conflito ali problematizados. A densidade da matéria pictórica quer se dissipar para além da moldura porque ela é parte desse mundo que ela representa. Apontar esse aceno para o exterior é transpor limites e enfatizar o drama contido na pintura.
A visceralidade é outro elemento fundante na obra do artista. A pintura possui gestos pictóricos ousados e cores que remetem a uma matéria simultaneamente espessa e fluída. O visceral se confunde com o vigor da pincelada de tinta acrílica. Certa brutalidade pode ser lida a partir não só da quantidade de tinta empregada mas na prontidão com que ela surge impressa sobre a tela. O políptico voltado para a rua cria essa relação precisa com a exterioridade. Ele se comunica com a cidade não só porque está exposto em uma vitrine podendo ser percebido por todos que passam em frente à galeria, mas pela sua conexão com a técnica, forma e expressividade do graffiti, um estilo altamente conectado com o urbano e os desafios da vida moderna. É aqui que a fluidez que acentuei ganha destaque. Sem abandonar o vigor do traço, a linha de René é leve, da ordem de um desenho no ar, sem perder a intensidade e a robustez da sua forma. Ademais, há uma energia contínua e expansiva que se comunica com o que acontece diante dela: a própria cidade. Essa interpretação é muito rica para refletirmos sobre como gesto, pintura, espaço público e insubordinação da linha se mesclam continuamente na obra de René.
As formas na sua obra se baseiam em um regime contraditório: aparecem mas desejam se dissipar. São rápidas, irresolutas pois também são manchas translúcidas, pois querem ser vistas como matérias que podem ser atravessadas pelo olhar. Não são campos cromáticos que criam barreiras, mas formas transparentes. Suas pinturas são produzidas por meio de uma linha que se desmorona incansavelmente, vazia, em torno daquilo que não pode ser representado. Seu vocabulário, digamos assim, é a forma da coisa; o gesto parece ser mais sensível às causas de René do que a cor. As texturas gestuais da obra e as camadas de tinta ondulantes ou ríspidas sobre a tela têm, em certa medida, precedência sobre a gama de cores que são, por vezes, conflitantes. Nesse sentido, possíveis aproximações e especificidades podem, mais uma vez, ser traçadas entre a pintura de René e o seu passado, que representou o início da sua trajetória como artista, no universo do graffiti.
Sem a superfície, o gesto não existe e é por isso que ela é vital como pensamento e articulação de ideias para René. A superfície que cria e pela qual o trabalho trilha é áspera, descontínua, irregular e ritmada por acidentes. A textura da tela ou do linho é muito importante para o artista porque é nessa superfície, digamos, que são provocadas as manchas e treliçados. É ali que ocorre o entrelaçamento de técnicas e a incorporação de efeitos pictóricos aleatórios que motivam a dinâmica do traço. É uma superfície movente, pois não existe um “centro” da pintura. O olhar do espectador está sempre a percorrer incansavelmente a tela, investigando as minúcias, sobreposições e experimentações do artista. É um campo indeterminado de possibilidades com movimentos simultâneos de choque e aproximação entre cor, linha e espaço.
A pintura abismal de René, no sentido tanto do insondável quanto o de relatar uma queda vertiginosa instaurando a ambiência da desordem, é composta significativamente por fragmentos que se tornam aparentes não só pelos gestos gráficos e expressionistas da tinta acrílica, mas por rápidas sobreposições de imagens – excessivos estímulos visuais como aqueles que cotidianamente nos invadem – que produzem uma sensação de perda ou de ruína do espaço. René não está interessado em imitar o visível ou transpor literalmente o “abismo” em suas pinturas. Em vez disso, ele cria sensações que estão intimamente relacionadas com forças irrepresentáveis, mas que são comuns a qualquer sujeito. É a instância de uma crise que aponta. De um sujeito perdido entre zonas de escuridão e formas que parecem desabar. Sua pintura também elabora essa imagem da vertigem ou ruptura incessante de linhas, traços, pontos e colunas. A aparição das manchas, como matéria informe, é consequência desse desfalecimento das formas. Por outro lado, pintar envolve certo estado de crise, ou, então um momento crucial de libertação. Crise não pode ser confundida unicamente com desamparo, mas como pulsão de vida. E é por essa vereda que caminha a obra de René: entre os desafios e aturdimentos do cotidiano que são apontados por suas simbologias, resta inequivocadamente a excitação de representar as sensações da vida.
Felipe Scovino
Sobre o artista
René Machado
Carioca, vive e trabalha no Rio de Janeiro.
Formado pela Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro, tem na pintura seu foco principal.
A obra de René se insere em uma linhagem de artistas que buscam vasculhar as possibilidades da pintura depois dos estrondos técnicos, visuais e conceituais causados pela Pop Art ou, ainda, pelas pinturas tragicômicas dos neoexpressionistas dos anos 1980. Prince, Richter e Wool, são alguns dos nomes que na arte atual têm se aventurado a evocar e reprocessar as obras de nomes como Warhol ou Polke, sem, no entanto, temer as suas figuras e conquistas históricas singulares. Prince e Wool podem ser vistos, respectivamente, como um cowboy e um punk que atuam, com a displicência saudável a qualquer a artista, sobre o plano pictórico.
René Machado atua de maneira semelhante na “cidade desespero”. Trancado em seu ateliê, na Casa Arlette, no Rio de Janeiro, durante suas intensas semanas de trabalho, vasculha suas próprias origens profissionais como publicitário, e suas vivências como cria do subúrbio carioca, assimilando-as à imagética variada e viva da arte urbana e, mais recentemente, às possibilidades artísticas que circundam a ideia de “pintura abstrata” na atualidade.
Suas obras têm percorrido diversos países e instituições de arte tais como: Brasil, EUA, Itália, Espanha e França. Figuram em coleções importantes, destacando MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES, Luciano Benetton e coleção Fadel . Em 2020, cria a Casa Arlette, um centro de produção artística contemporânea, que além dos artistas residentes, se tornou um espaço de encontro entre intelectuais dos gêneros da arte.
