Paisajes Audibles

Mariana Villafañe


11/05/2026 à 20/06/2026


Sobre a exposição

A série Paisajes Audibles de Mariana Villafañe parte de uma interrogação consistente: como transmitir dinâmica e movimento a uma imagem planar? São pinturas constituídas também por um acontecimento, uma vibração contínua de planos que estão sempre em expansão. A artista está interessada na transição do plano ao espaço, em formas que não se contentam simplesmente em habitar a planaridade. Suas obras evocam um estado de transitoriedade, pois possuem o desejo pela volumetria e a densidade, e manifestam o caráter ativo, enérgico e relacional do espaço. Ainda que virtualizados, os volumes de Paisajes Audibles viram massas de energia expansiva, construindo territórios e potencialidades sonoras que querem habitar outros espaços além da moldura. Uma tensão habita o jogo cromático entre o preto, o branco e ocasionalmente o cinza definindo feixes em fuga. Tudo é virtualidade e interatividade.

Paisajes Audibles são obras também maleáveis para o olhar do espectador, pois estão sempre oferecendo novos pontos de vista, convocando-nos a investigá-las atentamente. Não se tratam “apenas” de pinturas mas de paisagens que possuem um comprometimento com o som. Suas elipses e estruturas côncavas e convexas, resolvidas sempre no âmbito gráfico, não só fabricam arquiteturas translúcidas mas, como uma coreografia, constituem também um ritmo intenso e amplificado para o aparecimento de ondas sonoras. Estas estão bem demarcadas nessa série, viajando a velocidades surpreendentes e vibrando as moléculas do meio em zonas de compressão e rarefação. Villafañe aproxima geometria, som, arquitetura e pintura em uma obra íntegra, porém esquiva porque está aberta, enquanto um jogo virtual, a especulações por parte do espectador. Sua estrutura, digamos, provisória aponta para uma obra em suspenso, que não cumpre um programa prévio. Opera combinações e deslocamentos, pois está na esfera da relatividade, já que nunca é estática, pois logo anuncia suas próximas combinações.

A escala dessa série reforça o interesse de Villafañe pela arquitetura. Sobre este aspecto, é inteligente a maneira como a artista opera: por mais complexas e grandiosas que sejam as formas apresentadas, o trabalho nasce de uma rara economia, quase sempre partindo do cruzamento de planos e da exploração de engendrar espaço a partir do jogo entre plano e vazio. Afinal, Villafañe busca uma indagação sobre a bidimensionalidade e o espaço limitante da pintura. Suas figuras e jogos geométricos parecem se evadir do perímetro da tela. Os planos se organizam para produzir uma alternância entre encobrimento e revelação, reversibilidade e descontinuidade. Suas arquiteturas não são um impedimento para o olho, pelo contrário, são estruturas translúcidas e permeáveis que ganham ainda mais potencialidade diante do interesse da artista em explorar graficamente uma elasticidade das ondas sonoras.

Villafañe olha para o passado mas o reconfigura totalmente. Digo mais, suas obras trazem contribuições que são fundadoras. Se o legado construtivista e futurista – particularmente o interesse por L’arte dei rumori, o manifesto futurista escrito por Luigi Russolo, em 1913, que argumentava que o ouvido humano havia se acostumado à velocidade, energia e ruído da paisagem sonora industrial urbana e essa nova paleta sonora exigiria nova abordagem para a instrumentação e composição musical – assim como as contribuições altamente significativas da geração de artistas cinéticos argentinos são experiências enriquecedoras para o trabalho da artista, ela própria constituiu a sua autonomia e, por que não, legado para a arte de tendência abstrato-geométrica. Villafañe foi além do debate puramente formal, incorporando, por exemplo, o tempo como “técnica” de suas obras e conciliando o lúdico e o experimental. Dinamismos e El Sonido del Tiempo problematizam, cada um ao seu modo, o tempo como tema e matéria. Na primeira série, as questões envolvendo movimento gráfico alcançam a tridimensionalidade com a obra modificando-se segundo o seu próprio tempo. Agora não é apenas a linha ou espaço em movimento mas a cor. O movimento e a participação se dão de forma autônoma em relação ao espectador, o que não acontece nas suas pinturas de matriz construtiva, já que a mobilidade do espectador frente a elas causa uma nova dimensão de mutação e confronta a suposta rigidez que uma pintura teria. O tempo processado pela máquina em Dinamismos não diminui o fascínio que é provocado pelo movimento do jogo de luzes, uma relação simbólica com a estrutura do caleidoscópio e, portanto, uma associação lúdica com a pintura. A artista nunca deixa de pintar mesmo o seu “pincel” sendo a luz. Uma concepção que também foi seguida pelo artista brasileiro Abraham Palatnik e pelos argentinos Antonio Asís, Martha Boto, Horacio García-Rossi, Kosice, Julio Le Parc, Luis Tomasello, precursores da arte cinética mundial. Esse conjunto de obras de Villafañe nasce de gestos simples, porém profundamente encantadores, sendo que mais uma vez o conceito de paisagem é trazido, agora por vias ainda mais abstratas mas seguramente transformadoras acerca desse fenômeno. O conjunto de lâmpadas coloridas cria um número infinito de composições na superfície da caixa transmitindo um sentido de epifania. Transgressão e coerência andam juntas na obra da artista que está sempre por explorar as possibilidades tecnológicas da arte.

Já El Sonido del Tiempo também demonstra a estima da artista por representar aquilo que é da ordem do invisível. Se o vazio é matéria fundante da sua obra, o tempo, ou o som que emite, pode ser representado. Mas como dar forma àquilo que é imaterial? E mais do que isso: qualificar o tempo como uma força ou potência que afirma a sua presença por conta da emissão de um som. A vibração ótica e o aspecto maquínico que as obras dessa série possuem criam uma relação intensa com a celebração da industrialização e da velocidade que Russolo apontava em seu manifesto. O artista italiano dizia que a eletrônica e outras tecnologias permitiriam que músicos futuristas substituíssem a limitada variedade de timbres que a orquestra possuía naquele momento pela infinita variedade de timbres de ruídos, reproduzidos com mecanismos apropriados. Nesse sentido, El Sonido del Tiempo são pinturas que reverberam o espaço polifônico das cidades e o ruído não como algo abjeto ou repugnante, porém como forma constituidora do passado e do presente. O ruído é uma marca do nosso processo civilizatório, seja pelo seu incômodo e todas as questões relativas aos impasses trazidos pelo progresso, mas também signo de transformação e aceleração. El Sonido del Tiempo é uma representação da imaterialidade e, como projeção ou pura especulação, o projeto de uma máquina que sintetiza as ambivalências da modernidade.

As séries Polifonias: Concierto para esferas metálicas e Habitar la Maquina são indicadores da pesquisa da artista pelo tema da máquina e da arte cinética, ainda que ela rompa com os cânones modernos. Suas obras ilustram contribuições vitais para o movimento da arte cinética que incorporou, ao longo da sua existência, o movimento a fim de explorar fenômenos elementares, perceptuais e ambientais. Para além disso, Villafañe está claramente buscando novos problemas visuais para além do rigor geométrico. Em Prototipo de Experimentacion Sonora 7 emprega o uso de esferas metálicas sobre o motor da obra de modo a criar uma espécie de sinfonia: o som gerado pelo atrito entre as esferas e o motor não só cria uma expectativa e dramaticidade ao acontecimento como parece desacelerar o tempo. Pacientemente observamos o registro daquela máquina que com seu motor a girar as esferas produz… música. São máquinas que em sua apresentação coletiva se organizam como instrumentos ou mesmo uma sinfônica. As esferas metálicas aparecem em outras obras da série Concierto como uma instância de aproximar o lúdico, a música e uma cadência temporal que experimenta outra modalidade de atenção e fruição sobre o mundo. Em Habitar la Maquina permanece a investigação sobre a relação entre arte, tecnologia e geometria. Quando a máquina é colocada em movimento, o disco pulsa hipnoticamente, projetando-se e recuando em um espaço ilusório. Os planos não se fixam, interagem, propondo um jogo de alternativas possíveis. A vista não repousa, ativada pelas ambíguas relações que criam constantemente modelos intercambiáveis e coloridos.

Villafañe implica um novo regime de sensibilidade ao transpor a experiência das obras também para o campo da audição. A condição essencial das suas criações é a formação de um sistema vivo, no qual todas as partes são mutuamente independentes e relacionadas. Para além da visão e da construção de virtualidades espaciais, o que se coloca em questão é a relação estreita entre a máquina, não mais como elemento alienante e atrelado à compulsão capitalista, e a música seja enquanto um projeto como nas pinturas ou mesmo como experimentação auditiva. Além disso, a artista, de modo significativo, promove uma mudança na duração perceptiva, pois, de modo geral, quando realizamos a experiência de nos conectarmos à sua obra o tempo parece se dilatar. Voltamos as nossas atenções para uma indagação mais estendida e aprimorada sobre o que está diante de nós. E isso não é pouco em um mundo regido pela fugacidade e competição. As formas ilusórias e a vivência do tempo-duração de Villafañe tornam aparente a imprecisão sobre classificar as coisas e o quão diversa é a nossa experiência no mundo.

Sobre o artista


Mariana Villafañe nació en Buenos Aires, Argentina, en 1972.
Se formó en la UBA (Universidad de Buenos Aires), donde estudió Arquitectura, y en el
IUNA (Instituto Universitario Nacional de Arte), donde estudió Artes Visuales.
Formó parte del Programa de Artistas de la Universidad Torcuato Di Tella (2009-2010) y
Participó del Centro de Investigaciones Artísticas (2012-2013).
Realizó un posgrado en Sotheby’s en Art History and Art Business.
Realizó clínicas de obra, cursos y talleres con Fabiana Barreda, Ernesto Ballesteros,
Matías Duville, Santiago García Navarro, Alejandro Cesarco, Valeria González, Alfio
Demestre, Daniel Quiles (CIA & Art Institute Chicago), Pablo
Siquier (IUNA), Séverine Hubard, Paula Messarutti, Lucio Castro (CIA), Rodrigo Alonso,
Mari Carmen Ramírez (Museo Nacional de Bellas Artes), entre otros.
Expuso colectivamente e individualmente en Buenos Aires, París, San Pablo, Bogotá,
Barcelona, Miami, Lima, Palm Beach, Dubái, México DF, Santiago de Chile, Nueva York,
Berlín, Beirut, Montevideo, Jose Ignacio.
Entre sus exposiciones se encuentran Habitar la máquina (2025), en el Espacio Cultural
Barrakesh; Paisajes audibles (2016), en el Centro Cultural Recoleta; y El centro en
movimiento (2018), en el Centro Cultural Kirchner, con curaduría de Rodrigo Alonso.
Recibió, entre otros reconocimientos, la selección en el Premio Itaú (2023), el Berlin Art
Prize (2012) y el Premio Banco de la Provincia de Buenos Aires (2011).
Sus obras forman parte de colecciones públicas y privadas de estas ciudades, entre
otras. Vive y trabaja entre Buenos Aires y Madrid.