

















Sobre a exposição
Vertido
Pedro Varela
A água não conserva as coisas, ela as transforma. Abaixo da superfície, o tempo adquire outra espessura. Os contornos se deslocam, as cores se alteram, as distâncias já não obedecem à mesma medida. Nada permanece exatamente como era, mas tampouco desaparece. Em Vertido, Pedro Varela faz da pintura um ambiente de imersão, onde as imagens atravessam diferentes tempos e reaparecem continuamente, como se a própria matéria da tinta preservasse o movimento incessante das águas.
Vertido marca a primeira exposição individual do artista na galeria e reúne um conjunto de trabalhos que evidencia uma nova inflexão em sua pesquisa. Sem assumir o caráter de retrospectiva, dado que os trabalhos são recentes e realizados para estarem aqui, o que vemos remonta visualmente diferentes momentos de sua trajetória e faz coexistirem signos, procedimentos e materiais que atravessam mais de vinte anos de carreira. Trata-se de uma exposição que nos convida tanto ao reconhecimento quanto à descoberta, uma vez que as recorrências plásticas permanecem, como se fossem lentamente transformadas pela própria experiência da imersão.
Nas pinturas, a tinta diluída estabelece o ritmo da exposição. Ora ela se espalha em transparências que se aproximam da aquarela, ora concentra-se em espessura, tornando visível o tempo e o gesto do exercício contínuo da pintura. Em outras superfícies, papéis recortados compõem imagens que reafirmam este deslocamento temporal na trajetória de Pedro. As colagens, elas não interrompem a pintura do artista, antes prolongam seu fluxo, fazendo com que matéria e imagem compartilhem valores e desejos criativos. A escala dos trabalhos, por sua vez, amplia a experiência de imersão, pois convida o observador, como em um mergulho, a percorrer uma paisagem em que corpos, flores, arquiteturas, recifes de coral parecem emergir de uma mesma corrente.
Em Vertido, nada retorna exatamente ao lugar de onde partiu. A água, signo aqui tão presente, altera as formas. A memória, força que move e determina o desejo, reinventa as paisagens. E a pintura, linguagem central da pesquisa do artista, faz do tempo uma matéria sempre disponível à transformação. Em um lugar localizado entre o silêncio das profundezas e a pulsação do sangue que faz florescer a vida, Pedro Varela delimita um recorte de universo onde recordar não significa repetir, já que cada imagem é sempre uma possibilidade de reinvenção.
Shannon Botelho
Sobre o artista
Pedro Varela (Niterói, Brasil, 1981) vive e trabalha em Petrópolis, Rio de Janeiro. A paisagem é uma espécie de eixo central na produção de Pedro Varela, e vem sendo explorada pelo artista através de diferentes meios, técnicas e séries. Em seus trabalhos, o artista apresenta cidades imaginárias que se dissolvem no vazio, florestas tropicais que evocam nossas raízes culturais mestiças e panoramas que tentam abarcar vivências do mundo real e virtual ao mesmo tempo, entre outras paisagens. Atualmente o artista vem desenvolvendo séries de pinturas monocromáticas e desenhos multicoloridos.
Tem trabalhos nas seguintes coleções: Coleção SESC (São Paulo-SP); Gilberto Chateaubriand/Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ); Montblanc México (Cidade do México); Sprint Nextel Art Collection, Overland Park; Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro (MAR-RJ).
Entre suas principais exposições destacam-se: “Enredado”, exposição com Carolina Ponte no Kunsthal de Viborg, Dinamarca. “Hiper Paisagem”, Zipper Galeria, São Paulo, 2022; “Sonhário”, intervenção no Shopping Leblon, Rio de Janeiro, 2022; “Trail with no end in sight”, Galeria Enrique Guerrero, México, 2019; “Autofágico”, Zipper Galeria, São Paulo, 2019; “Trail with no end in sight”, Galeria Enrique Guerrero, Cidade do México, 2019; “Tender Constructions”, (com Carolina Ponte), Cité Internationale des Arts, Gallery 4 and 5. Paris, França; “Pedro Varela”, Zipper Galeria, São Paulo, 2016; “O grande tufo de ervas (Com Mauro Piva)”, Galeria do Lago – Museu da República, Rio de Janeiro, 2015; “Crônicas tropicais”, MDM Gallery, Paris, 2015; “Tropical”, Galeria Enrique Guerrero, Mexico DF, 2014; “Dusk to dawn… Threads of infinity (com [with] Carolina Ponte)”, Anima Gallery, Doha, Catar, 2014; “Pedro Varela”, Centre Culturel Jean-Cocteau, Les Lilas, 2014; “Pedro Varela”, Xippas, Montevidéu, 2013; “Le Brésil Rive Gauche”, Le Bon Marché Rive Gauche, Paris, 2013; “Tropical”, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 2012;
