2023: Explosão de Horizontes – Rafael Vicente – 18/11/2023 à 09/02/2024

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    • Sobre a exposição

      Explosão de horizontes 

       

      Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, 

      mas a areia é quente, e há um óleo suave 

      que eles passam nas costas, e esquecem. 

      Carlos Drummond de Andrade, Os inocentes do Leblon 

      Na semana passada, o mar em ressaca, reagindo a um ciclone longínquo ou a outra aspereza atmosférica qualquer, encobriu a praia, atravessou o calçadão, as pistas e foi bater na parede de prédios que emoldura o Leblon. Impossível ignorá-lo, até porque o fenômeno varou a tépida noite carioca. Isso, veja bem, no Leblon, perto de onde Carlos, nosso poeta maior, moldado em bronze, está sentado, meditativo, com as pernas cruzadas. Como se estivesse esperando. Esperando o quê?  

      Como se lê nos jornais, como se vê pela tevê, pelas redes sociais, por toda parte, a sensação, a inquietante sensação, é que talvez não mais se consiga reverter o processo do que parece ser uma revanche da natureza, ainda mais porque à fúria dos elementos junta-se a fúria natural da espécie, suas pulsões autodestrutivas. Por tudo isso, antes de achar bonitas essas pinturas que Rafael Vicente traz à BH, e não há dúvida de que sejam bonitas, considere que elas tratam do mundo, este em que estamos, convulsionado, explodido, escavado, como o lado de lá da grandiosa Serra do Curral.  

      Da parte de Rafael não há idealização de qualquer espécie. Vá em frente, aproxime-se das telas pequenas e constatará a convivência de planos fragmentados, planos que talvez um dia tenham sido unidos, integrados, mas que agora lançam-se uns contra os outros em diagonais, lembram o verso de Henriqueta Lisboa, outra grande poeta mineira: em relâmpago os bárbaros no espaço. Nessas telas as relações cromáticas dão-se pelo contraste entre tons quentes e frios, entre o tratamento das superfícies dos planos, variando entre cores aplicadas em solução lisa e homogênea com soluções crespas ou ainda em gestos rápidos, gráficos. Não bastasse, o artista, explorando essa convivência entre silêncio e ruído, o esfacelamento em curso, adiciona camadas de papel grosso recortado, advertindo que todo esse movimento é real, acontece dentro da tela mas vai escorrendo para fora. Foi assim com a escultura que ele apresentou em sua impactante exposição no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, tábuas e caibros de várias dimensões, como que paralisadas logo após a explosão que desfez o volume que juntos formavam. 

      A pesquisa de Rafael Vicente afina-se com a arquitetura tortuosa do Museu Judaico de Berlim, obra de Daniel Libeskind, com suas soluções antifuncionais, as fendas -nada de janelas- por onde timidamente se insinuam réstias de luzes. Dialoga também com as prosas de WG Sebald e Patrick Modiano, em suas persistentes e fracassadas tentativas, pela via da memória, de reconstituição de um mundo despedaçado, que se vai perdendo, afastando-se velozmente de nós. 

      Agnaldo Farias   

      Abertura
      18/11/2023 – 11h às 14h

      Exposição
      de 18/11/2023 à 09/02/2024
      de Seg. a Sex. – 10h às 19h
      Sáb. – 10h às 14h

    • Informação(ões) do(s) artista(s)

      Rafael Vicente, Niterói 1976.

      Vive e Trabalha no Rio de Janeiro onde possui um atelier na antiga Fabrica Bhering.
      Bacharel em Pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ, Rio de Janeiro.
      Frequentou o curso de Análise e inserção na produção contemporânea com Iole de Freitas EAV,
      Parque Lage, Rio de Janeiro e fez cursos teóricos com Agnaldo Farias, Fabiana de Moraes e Suzi
      Coralli.
      Diretor Geral do Colégio Niterói
      Ex subsecretario de Cultura de Niterói
      Professor substituto de teoria da Pintura da Escola de Belas Artes UFRJ
      Professor substituto de Desenho Artístico da Escola de Belas Artes UFRJ

    • Imprensa

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